sexta-feira, 25 de julho de 2008

Coisas com sabor a outras coisas

"Quase todas as coisas sabem a outras coisas, o que acaba por ser uma absoluta falta de respeito pela dignidade das coisas. neste momento, por exemplo, é quase impossível comprar um pacote de batas fritas que saibam a batatas fritas. Há batatas com sabor a queijo, a presunto, a cebola, a alho, a ervas aromáticas e a churrasco. É preciso procurar bastante para encontrar essa raridade que são batas com sabor a batata.
Não vale a pena chorar pelas batas porque não são as vítimas isoladas da praga. Há café com sabor a anis, a baunilha ou a canela, e a água com sabor a limão, a morango, a pêssego, a framboesa ou a jinseng. O caso da água é particularmente escandaloso, na medida em que se trata de um líquido incolor, inodoro e insípido. Se tiver cor, cheiro ou sabor, deixa de ser água. Aquilo que nos vendem é, portanto, uma fraude engarrafada. "Água com sabor" é uma contradição intrínseca aos termos em que é expressa. Não é modernidade; é parvoíce. Até porque a água com sabor já foi inventada há alguns anos, no Oriente. Parece que se chama "chá".
O flagelo ameaça alastrar a todo o lado. Não é gosto refinado: é javardice. sabem em que outro sitio é que se encontram morangos com malaguetas, água choca e batatas com sabor a fumo? No balde dos porcos. foi nisso que se transformou a nossa alimentação. Em lavagem. E alguém tem de fazer alguma coisa, antes que apareça o esparguete com sabor a leite condensado. Está para breve. "

Ricardo Pereira



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