Continuo aqui, e só agora acordei. Tão pequena, tão nojenta que eu estou. Não pensei que o meu estado estivesse assim tão degradante, tão ridículo (que até me faz rir!), as coisas significativamente vão se alterando e, eu, logo eu, que me via tão simples, uma rapariga como tantas outras, sou agora o reflexo do resultado da soma feita com desgraças e dores. Devia de partir, ok, confesso, era isso o ideal. O perfeito. Partir não sei para onde, não sei como, não sei de nada (como se alguma vez eu tivesse sido capaz de saber de algo!) e, pinto a cara com uma maquilhagem muito preta, como aqueles emos, como aqueles que as pessoas olham de lado. Crio o meu próprio cenário, rio tanto e falo em tons de voz com enumeras expressões indomaticas, represento e visto-me de acordo com a situação, as melhoras roupas (afinal de contas, é mais um episódio da minha vida que estou a representar) e deixo-me levar pela noite adentro, com musicas onde me perco em valsas, pulo, faço os meus melhores movimentos (só porque tenho uma multidão enorme a olhar para mim, só por isso) e vagueio nas minhas secretas loucuras, dou voz aos meus gritos, as minhas gargalhadas que são acompanhadas de sangue (sou mesmo nojenta!) e toda esta multidão fantasma, que eu inventei, batem palmas e acompanham-me entusiasmados, prontos e ansiosos de se deliciarem comigo (gostam imenso de orgias!) e, eu preparo-me.
O momento da entrega está próximo, sinto as suas respirações mais tensas, menos sincronizadas. Rio-me, devaneio perdidamente. Apenas mais um copo de vinho do porto, para o meu sangue não ser tão azedo, para a minha pele ganhar algum tom de cor e passar despercebido este pálido típico de uma rapariga que não bate bem da cabeça, que se deixa no quarto a soltar os seus fantasmas, a gritar, e roda em sua volta.
Cai no chão – não chora. (que figuras as minhas! Risos!!) A viagem começou agora. Eles sedentos do meu corpo, da minha alma… agarram-me as pernas e, puxam-me. E eu não faço força para não ir – vou. E assim deixo de continuar aqui, como inicialmente referi.
Já não há salvação para mim, cai na perdição de um poço sem fundo nem tamanho. As pinturas que anteriormente fiz na minha face, tornam-se borratadas pela saliva deles, pelas suas línguas, que me percorrem. Chega o momento, foco um ponto e, o meu interior desliga-se. Neste momento, percorro o mundo e não estou ali.
Não era naquela orgia que eu queria estar, e assim, mentalmente criei o meu mundo e, quando estou nas situações que não quero e para lá que vou.
Tenho medo de não voltar, de por lá ficar… porque a minha vida é a própria situação que eu não queria estar.
O dia nasce. Todos me abandonam, já sem forças, o corpo com marcas de tudo o abuso sofrido. Arrumo as roupas, limpo a cara, desligo a música. E, abro a porta. Tenho o dia lá fora para viver, para quando chegar a noite, eu possa voltar a viajar mentalmente. E, ser a merda que sou, coisa nojenta e desprezável – o espelho diz-me a mim.
Continuo aqui, e só agora morri.
(foto do site olhares.com)
2 comentários:
Quanta cobrança... seria essa uma visão distorcida de você? Muitas vezes o espelho não mostra quem somos ou nós não conseguimos ver o que ele nos mostra de verdade.
Mas todos temos os nossos momentos.
Muito bom seu texto, linda.
Beijo meu.
Escreves p'ró mundial!!!!
=D
Adorei o blog!
Beijo*
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