segunda-feira, 23 de março de 2009

Papagaio.

Por meio de palavras escritas consegue-se pouco nitidamente encontrar palavras que se encaixam e concentram-se amontoadas naquilo que é deveras lógico.
Tudo o que encontra acolhimento no meu espírito não é mais verdadeiro do que as ilusões dos meus sonhos. Encontro-me num dilema entre utilizar o eu, algo definido e concreto, ou utilizar o alguém, que pode ser tudo, ilimitado. Debato-me sobre o mais adequado para não falar de mim, para não falar, para deixar o silencio se instalar. Falar de nós mesmos é sempre mais difícil do que falar em abstracto, em criar dores muito mais fortes do que as que se concentram em nós. Já nem doí de tanto doer. Não se sente e não se refuta esta ideia.
Nem se duvida. Por tudo em duvida ate encontrar uma crença básica - penso, logo existo - recomendaria-me o velho filosofo Descartes. Será que penso realmente? Existir advém verdadeiramente do facto de pensar? Convida-me para entrar em tua casa. Realmente, penso. Consequentemente, existo. Diria que fui criada com o objectivo de despertar, despertar almas adormecidas para a vida. E só obtenho prazer nessa fase de libertação. Depois, tenho de partir. Abandonar. Pressionar a próxima tecla do piano, encher os pulmões de novo ar e começar um novo ritmo de respiração. Deixar para lá as cordas da marioneta e seguir. Como eu fiz, como eu curei as asas de cera que tinha derretido no caminho ate ao sol. Devia bater palmas a pessoa que anteviu o futuro e dar-lhe a razão. "sim, tu bem disseste" mas eu não queria dar troco a quem me deu dinheiro falso. Não queria dar algo que não queriam receber.
Falo assim em bom português para quem esta disposto a ouvir-me. Poucas coisas tenho acrescentar ao meu numero de anos, a minha altura, ao meus peso e a minha morada. O nome todos sabem. Mas, de mim ... quem me levou?
Foi um papagaio que um dia conheci, que li, que em encantou. Debroçei-me na janela para o desprender da árvore onde tinha ficado preso. Só mais tarde, vi que eu fiquei também lá retida. Ninguém procurou saber de mim. Só eu procurei de mim, a minha mente abandonou o corpo e subiu ramo por ramo e desfez os laços que me faziam ficar de pernas para o céu, naquele tronco de árvore mais grosso. Cortou e cortou ainda mais.. para além dos laços, cortou as veias do meu corpo. Agarrei-me a vida, fiz um esforço. e inseri-me novamente. com os cortes que a roupa disfarça, que uma maquilhagem banal cobre. Já mostrei demais. E tu, voaste. Modificaste. Não sei quem foste. E porque não foste buscar o que era teu - o teu papagaio. Talvez, não quiseste mais saber dele. Sei que ele tinha perdido as cores face as condições climatéricas que ia aguentando. Recuperei(-me) e pintei(-me) de todas as cores do arco-íris. Encontro muito mais do que procuro. Vivo assim. Já nem tenho frio.

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