Como um barco vazio, caminho pelas margens do rio.
A água está densa mais densa que o nevoeiro que sinto timidamente na minha pele. O silencio fala-me em mil tons indecifráveis que sabem bem, apenas porque não entendo o que me dizem.
O som mudo me contraria os pensamentos e, eu sorriu.
Este ruído faz-me bailar num espaço imóvel, num espaço molhado, num espaço triste. E quem sabe (?) no meu espaço.
Teimosa, cai do alto. Rasguei-me em mil folhas e senti de novo a terra a entranhar-me nas unhas, o cheiro da minha infância, quando corria a fugir não sei do que, talvez de mim própria, talvez dos meus medos.. e depois de tanto correr, caia naquela terra, olhava para o céu. Ah ! Que tonalidade que o céu tinha naquela altura ! Ou eram os meus olhos que eram diferentes ?
E perdia-me. E sabia sempre o caminho de retorno, vários atalhos existiam, não precisava de GPS , sabia-me encontrar. Hoje não.
Como adorava percorrer aqueles campos, por meio das varas de milho, muito maiores que eu, e receber carinho da minha avó, das minhas tias, que hoje sei que não são minhas tias de sangue - são tias do coração.
E a sexta-feira, como era doce encostar-me a um canto da divisão onde a minha avó fazia o pão e, eu observava. Sonhava que um dia ia ser como ela. Forte, determinada, feliz. A minha avó foi e é o meu orgulho !
Era tão livre, era tão feliz !
Uma pequena poça de água satisfazia minhas delicias. Hoje, desvio-me delas para não me molhar, para não ficar doente.
Onde perdi a magia de ser ?
Era tão doce ficar doente, ficar com varicela era divertido! Todos ficávamos em casa, numa cama dormiam cinco ou seis, com os mesmos sintomas. Hoje, nem se aproximam de quem adoece.
E inventar muito. Fui uma pequena inventora! Umas cicatrizes no corpo, muitas nódoas negras.. E ainda hoje me questiono como é que uma galinha sem cabeça corre !
Sorrisos e mais sorrisos! Lágrimas causadas por mim e pelos outros, tudo era bom. Tudo era mágico ! Novo ! Como experimentar o microondas e queimar o pão. Como passear o cão pequenino e deixa-lo fugir, porque não tínhamos forças para o segurar.
Para segurar a minha infância, para segurar a tonalidade daquele céu que conheci, para a segurar as fantasias que partilhavam comigo, para segurar o cheiro a terra molhada e o sabor ao pão feito pela minha avó.
Inútil.
Memorias que nunca ninguém me vai roubar, única coisa que sei que realmente me pertence!
As lembranças trazem saudade. Abraça-me. Só mais uma vez, pf
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